O sonho da Cinderula…
Lula roubou a cena na reunião do G20? Menos, bem menos que a sensacional imprensa brasileira alardeia… Lula, mesmo com o todo a sua espontaneidade, que é um dos charmes do ser brasileiro, da alegria nosso jeito de ser, a gaia existencialis brasilis, ainda não pode ser considerado um líder-fenômeno mundial. Lula ainda está mais para epifenomeno e vamos tratar de epifenomenos em post futuros…
Os spotlights e as camêras EX3 da Sony estavam mesmo em Obama, o presidente negro que conheceria pela primeira vez a endeusada Rainha da Inglaterra e alguns novos presidentes… Se por um lado Michelle Obama roubou a cena no inédito abraçar nas costelas da Rainha, Obama passou a seda na festinha particular para o Lula… Você deve ter visto a cena, repetida N vezes, ad nauseam. Lula se aproxima da rodinha de presidentes e Obama vai falando “Ele é o cara, adoro ele, o presidente mais popular do planeta…”
Na coletiva, Lula estava com o rosto vermelho de encabulamento, a face ruborizada de tanto orgulho de si mesmo. Lula disse que Obama era um presidente com a cara da gente, que parecia um baiano, um carioca…
Na minha visão léguas distante, Lula pareceu muito mais satisfeito com o que ele já considera uma popularidade internacional, contudo, bastante alheio a intensidade da dimensão psicológica da crise internacional dentro do Brasil, país que ainda é dominado por um clã de infelizes não brasileiros… Exemplos para ilustrar como Lula confundiu o carisma pessoal com algum papel central na crise mundial; deslumbramento 1: ”É a primeira reunião de que participei na qual os países desenvolvidos estiveram em igualdade de condições com os países em desenvolvimento”, disse Lula; deslumbramento 2: “Hoje foi um momento muito importante para a história mundial”, arrematou… História mundial ou história pessoal senhor presidente?
A rigor a rigor, não me parece nada significativo o resultado concreto da reunião de hoje. Restaurar o crescimento e o mercado de trabalho através de US$ 5 trilhões para elevar a produção mundial em 4% até 2010 me parece mais vontade política do realismo econômico, até mesmo porque a crise é a crise da objetividade ocidental, remenber. E o que dizer dessa transformação de um Fórum em Conselho ligado ao FMI, o FSB (Conselho de Estabilidade Financeira) substituie o FSF (Fórum de Estabilidade Financeira)?
Esse epocal sucesso fora contrasta com os atuais primeiros sinais de erosão interna da popularidade do governo. Isso faz Lula mais ou menos parecido com o Gorbachev, presidente que era popular no mundo e impopular na União Soviética… Aliás, Gorbachev serve bem para explicar um epifenômeno, hoje quantos lembram de Gorbi?
Lula ainda cometeu outras gracinhas. Disse que achava “chic” o Brasil emprestar dinheiro ao FMI… O Mantega promete divulgar para esses dias o valor do montante. O G20 quer injetar 1 trilhão de dólares no FMI. O Brasil, sabemos, tem reservas de apenas 199 bilhões de dólares em um ambiente de gastos em desequilibrio com as receitas.
Outro ponto a considerar desse quase conto de Cinderela que vive o Brasi é a proposta do G20 de investir em políticas de segurança alimentar… Veja, o Brasil não tem uma política nacional de segurança alimentar… Soa estranho o Brasil ser signatário de um protocolo de boas propostas que o próprio Brasil ainda não alcançou em todos os seus aspectos. E não tem mesmo política de segurança alimentar, pois se tivesse não estaria importando fosfato para fertilizante tendo fosfato debaixo do solo sem exploração. Também não estaria plantando alimentos com foco apenas na exportação…
De qualquer maneira, vibrei com a participação do Lula, com o nosso jeito brasileiro irresponsável de ser, ”tem jeito pra tudo menos pra morte…” Fernando Henrique deve estar mordido de ciúmes, muito embora Fernando Henrique mereça muitos aplausos, inclusive pelo PROER que foi tão criticado e que hoje revela-se como um dos pilares que deu sustança ao sistema financeiro nacional…
Alias, hoje, não foi mesmo um bom dia para os tucanos: 1) Lula triunfante no G20; 2) O pacote para produção de medicamentosm via PPPs, embrulhado pelo ministro Temporão, que vai reduzir em 160 milhões a balança de importações de remédios que está em 800 milhões; 3) As desculpas pouco legalistas do senador Tasso Jereissati para justificar uma estranha cruzeta que garantia a manutenção do seu Citation, jatinho de 3 milhões de dólares, nas oficias da TAM…
Agora só falta quem pichava ”Fora FMI” pintar na cara ”SOS FMI”… E antes que me esqueça começem a apagar o nome Gordon Brown das agendas, o nome agora de David Cameron, se o Lula tivesse uma oposição à la Cameron o Brasil não teria cochilado no cachimbo dos juros e dos impostos altos…
