Confesso, a notícia me deixou abalado. Alguém vai pensar, mas Jango, João Goulart, ex-presidente, já está morto, por que o transtorno? É que sou igual ao New York Times, não escondo de ninguém que me considero pertencente a essa linhagem que começou em Getúlio, passou por Jango e estava na mão de Leonel Brizola. E saber que o Estado brasileiro esteve na mão de gente capaz de fazer uso de veneno para eliminar alguém é algo que deixa o meu coração partido. Saber que alguém na Presidência da República tem coragem de mandar misturar veneno entre remédios para o coração…
Certo é que reabriram uma das feridas mais profundas do espaço cósmico brasileiro. Em 1976, o presidente da República era o general Ernesto Geisel — autoridade bastante bajulada na imprensa cearense, que dominou durante anos do ciclo de redemocratização os contratos da Petrobras…
Acho mesmo que o próximo presidente do Brasil será aquela ou será aquele que está no dia de hoje com sincera dor profunda no fundo, indignado com esse veneno.
Publico aqui na íntegra a reportagem publicada hoje na Folha de S. Paulo para quem não é assinante daquele jornal…
.:
São Paulo, 27 de janeiro de 2008 — “João Goulart foi morto a pedido do Brasil, diz ex-agente uruguaio” – Jango morreu envenenado, afirma Mario Neira Barreiro — Sérgio Fleury teria dado a ordem para o assassinato — Presidente deposto teria dito aos agentes que sabia da espionagem: “Sei que estão me vigiando, mas não sou inimigo de vocês”
SIMONE IGLESIAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
Preso desde 2003 na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (RS), o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, 54, disse em entrevista exclusiva à Folha que espionou durante quatro anos o presidente João Goulart (1918-1976), o Jango, e que ele foi morto por envenenamento a pedido do governo brasileiro.
Jango morreu em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco. Ele governou o Brasil de 1961 até ser deposto por um golpe militar em 31 de março de 1964, quando foi para o exílio. À Folha Barreiro deu detalhes da operação da qual participou e que teria causado a morte de Jango. Segundo o ex-agente, Jango não morreu de ataque cardíaco, mas envenenado, após ter sido vigiado 24 horas por dia de 1973 a 1976.
Barreiro disse que Sérgio Paranhos Fleury (que morreu em 1979), à época delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, era a ligação entre a inteligência uruguaia e o governo brasileiro. A ordem para que Jango fosse morto partiu de Fleury, em reunião no Uruguai com dois comandantes que chefiavam a “equipe Centauro” — grupo integrado por Barreiro que monitorava Jango. O Uruguai mantinha uma outra equipe de vigilância, a Antares, para monitorar Leonel Brizola.
As escutas, feitas e transcritas por Barreiro, teriam servido de motivo para matar Jango. Mas, segundo o ex-agente (que tinha o codinome de tenente Tamúz), o conteúdo das conversas não era grave: tratavam da vontade de Jango de voltar ao Brasil, de críticas ao regime militar e de assuntos domésticos. Barreiro afirmou que interpretações “erradas e exageradas” do governo brasileiro levaram ao assassinato.
Segundo o uruguaio, a autorização para que isso ocorresse partiu do então presidente Ernesto Geisel (1908-1996) e foi transmitida a Fleury, que acertou com o serviço de inteligência do Uruguai os detalhes da operação, chamada Escorpião -que teria sido acompanhada e financiada pela CIA (agência de inteligência americana).
O plano consistia em pôr comprimidos envenenados nos frascos dos medicamentos que Jango tomava para o coração: o efeito seria semelhante a um ataque cardíaco. As cápsulas envenenadas eram misturadas aos remédios no Hotel Liberty, em Buenos Aires, onde morava a família de Jango, na fazenda de Maldonado e no porta-luvas de seu carro. Barreiro não exibiu provas e disse que o caso era discutido pessoalmente.
FOLHA - Qual era o interesse do Uruguai em vigiar Jango?
MARIO NEIRA BARREIRO - Após o golpe no Brasil, o serviço de inteligência do governo do Uruguai se viu obrigado a cooperar porque era totalmente dependente do Brasil. Goulart, para nós, era uma pessoa que não tinha nenhuma importância.
FOLHA - Quando passou a vigiá-lo?
BARREIRO - Eu o monitorei de meados de 1973 até sua morte, em 6 de dezembro de 1976. Monitorei tudo o que falava através do telefone, de escuta ambiental e em lugares públicos.
FOLHA - O sr. colocou microfones na casa? Como ouvia as conversas?
BARREIRO - Estive na fazenda de Maldonado para colocar uma estação repetidora que captava sinais dos microfones de dentro da casa e retransmitia para nós. Esta estação repetidora foi colocada numa caixa de força que havia na fazenda. Aproveitamos essa fonte de energia para alimentar os aparelhos eletrônicos e para ampliar as escutas. Isso possibilitava que ouvíssemos as conversas a 10, 12 km de distância. Ficávamos no hipódromo de Maldonado ouvindo o que Jango falava.
FOLHA - Alguma vez falou com ele?
BARREIRO - Sim. Eu e um colega estávamos vigiando a fazenda, fingindo que um pneu da camionete estava furado. Ele nos viu e veio até nós caminhando e fumando. Perguntou se precisávamos de ajuda. Estava frio e ele nos convidou para tomar um café. Eu pensei: “Ou ele é muito burro ou muito bom”. Ele me convidou para entrar na fazenda. Meu colega não quis ir. Depois que fiz um lanche e tomei o café, eu disse: “Desculpa, senhor, qual é o seu nome?”. Ele me olhou e disse: “Mas como, rapaz, tu não sabes quem sou eu? Tu estás me vigiando. Acha que sou bobo? Fui presidente do Brasil porque sou burro? Estou te convidando para minha fazenda porque não tenho nada a esconder. Sei que estão me vigiando, mas não sou inimigo de vocês”. Eu disse que ele estava enganado, me fiz de bobo, mas ele era inteligente.
:.
Barreiro afirma que comprimidos foram colocados na fazenda, no carro e no hotel. Jango “era desorganizado. Abria um frasco, tomava alguns, na fazenda abria outro… E colocávamos um remédio em cada frasco…
FOLHA - Como foi decidido que Jango deveria ser morto?
BARREIRO - O que levou à morte foram interpretações erradas, exageradas do que ele falava. Fleury foi quem deu a palavra final. Em uma reunião no Uruguai, disse que Jango era um conspirador e que falaria com Geisel para dar um ponto final no assunto. Depois, em outra reunião no Uruguai, disse — não para mim, mas para um major e um general — que tinha conversado com Geisel dizendo que Jango estava complicando e que ele sabia o que deveria ser feito. E ele [Geisel] disse: “Faça e não me diga mais nada sobre Goulart”. A morte não foi decidida pelo governo uruguaio, mas pelo governo do Brasil, influenciado pela CIA.
FOLHA - Qual foi o papel da CIA?
BARREIRO - A CIA pagou fortunas para saber o que Jango falava e foi responsável por muita coisa, mas não quero falar sobre isso porque tenho medo.
FOLHA - Como Jango foi morto?
BARREIRO - Foi morto como resultado de uma troca proposital de medicamentos. Ele tomava Isordil, Adelfan e Nifodin, que eram para o coração. Havia um médico-legista que se chamava Carlos Milles. Ele era médico e capitão do serviço secreto. O primeiro ingrediente químico veio da CIA e foi testado com cachorros e doentes terminais. O doutor deu os remédios e eles morreram. Ele desidratava os compostos, tinha cloreto de potássio. Não posso dizer a fórmula química, porque não sei. Ele colocava dentro de um comprimido.
FOLHA - Como as cápsulas eram colocadas nos remédios de Jango?
BARREIRO - Ele era desorganizado. Abria um frasco, tomava alguns, na fazenda abria outro. Tinha sete, oito frascos abertos. E colocávamos [referência ao grupo que monitorava Jango] um remédio em cada frasco. Colocamos os comprimidos em vários lugares: no escritório na fazenda, no porta-luvas do carro e no Hotel Liberty.
FOLHA - O sr. concordava com a operação para matá-lo?
BARREIRO - Era contrário, mas era um simples serviçal. Passei a simpatizar com ele. Goulart era um homem bom. Mas se tivessem me pedido para eliminar Brizola, eu mataria: ele era um conspirador nato.





Comentários 1
São Paulo, domingo, 27 de janeiro de 2008
Biógrafos de Jango afirmam não haver prova de assassinato
– Mas Jorge Ferreira diz que ela não pode ser descartada; para Marco Villa, afirmação é tentativa de reescrever história
– Serafim Jardim, que foi secretário particular de JK e escreveu um livro sobre seu suposto assassinato, afirma que “muita coisa ficou no ar”
FERNANDO BARROS DE MELLO
DA REDAÇÃO
FELIPE BÄCHTOLD
DA AGÊNCIA FOLHA
A hipótese de que o presidente João Goulart (1961-1964) foi perseguido e assassinado pelo regime militar não é descartada, mas divide as opiniões de estudiosos do tema.
Publicado 27 Jan 2008 em 19:12 ¶Para Jorge Luiz Ferreira, historiador da Universidade Federal Fluminense que vai publicar uma biografia sobre Jango neste ano, não é possível descartar a tese de assassinato, mas não há prova cabal de que ele tenha ocorrido e também é preciso considerar o histórico de saúde do presidente.
“A Operação Condor foi uma realidade. Segundo estudos, os militares do Cone Sul estavam convencidos de que, com a política externa norte-americana de Jimmy Carter, os regimes militares estavam com os dias contados. Desse modo, tudo indica que eles queriam fazer uma “limpeza”, livrando-se de políticos de oposição”, afirma.
“Mas é preciso lembrar o histórico de saúde. Ele era cardíaco, no último ano de vida não subia escadas sem ficar ofegante. Naquela época, ninguém se preocupava com colesterol.”
O historiador descreve que Jango consumia gordura, tomava algumas doses de uísque e fumava, apesar de, no último ano de vida, ter diminuído os dois últimos. “O primeiro acidente cardiovascular dele ocorreu quando ainda era vice do Juscelino e viajou ao México.”
Segundo o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (SP) e autor do livro “Jango, um Perfil” (2004), dizer que Jango foi assassinado é uma tentativa malfeita de reescrever sua biografia. Para o professor, ele não tinha atuação política na época da morte, o que extinguiria qualquer interesse em matá-lo. “Construir uma figura de resistência da ditadura e que por isso foi assassinada é uma versão requentada [da tentativa] de transformar o Jango em um presidente reformista”, diz. Villa não crê na participação do delegado Sérgio Fleury no suposto assassinato. Para ele, o delegado não tinha papel de liderança na repressão no Brasil.
Villa diz que a comissão da Câmara que investigou em 2001 a morte de Jango não achou nenhum elemento que prove homicídio. Já o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), relator daquela comissão, diz que as circunstâncias em que Jango morreu são “duvidosas”, mas não havia como concluir se ele foi morto ou não. Contudo, há “certeza absoluta” de que Goulart foi perseguido.
Serafim Jardim -secretário de Juscelino Kubitschek e autor de “Juscelino Kubitschek: Onde está a Verdade?”- defende a tese de assassinato e diz que é preciso investigar mais as mortes de Juscelino, Jango e Carlos Lacerda: “As mortes são coincidências grandes. Eu convivi com Juscelino. Escutei várias vezes ele me dizendo: “Querem me matar”. Depois, não deixaram fazer exumação dos corpos. O motorista que dirigia o carro do JK foi o primeiro que fecharam o caixão. Existe muita coisa que ficou no ar. Sobre Jango e Lacerda também.”
Comentário