“Gnosticismo, A religião da Literatura” segundo Harold Bloom…

Nota introdutória do livro “Gênio - Os 100 autores mais criativos da história da literatura” do ensaísta norte-americano Harold Bloom:

Este livro adota dois paradigmas, ambos bem menos esotéricos do que parecem: Cabala e gnosticismo. Convém, na verdade, acrescentar um terceiro, o Corpus Hermético, ou Hermética, notável coletânea de tratados compostos na helênica Alexandria, no século I da Era Cristã (e.c). Os estudiosos denominam o respectivo culto místico pagão, de origem grego-egípcia, “hermetismo”, a fim de diferenciá-lo de ramificações renascentistas e modernas, geralmente designadas “hermetismo”.

O Hermetismo exerceu imensa influência durante a Renascença, devido à noção equivocada de que os textos originários da seita seriam de fato anteriores a Moisés, e não contemporâneos ao Evangelho de João, conforme, de fato, o eram. Os hermetistas eram platonistas que absorveram as práticas alegóricas dos judeus de Alexandria e que levaram adiante a especulação de origem judaica relativa ao primeiro Adão, o Antropos, ou Homem Primevo, chamado Adão Cadmo, na Cabala, e “deus mortal”, segundo os hermetistas: “o humano na Terra é um deus mortal [enquanto] deus no Céu é um humano imortal.” Trata-se de gnose, ou conhecimento, decorrente do processo relativo à Criação e Queda que seria eleaborado pelos cristãos um século mais tarde, embora jamais com a eleoqüência característica do primeiro tratado hermetista Poimandres, em que o deus mortal sucumbe à nossa alição de “amor e sono”:

– Quando o homem viu refletida na água uma forma semelhante à sua, assim como existia na natureza, sentiu amor pela forma e desejou nela habitar; desejo e ação ocorreram no memso instante (…). Embora seja imortal (…), a humanidade está sujeita à mortalidade (…), [e] ainda que esteja acima da estrturua cósmica, uma vez no interior da mesma, ele se tornou escravo. É andrógino porque foi gerado por pai adnrógino e jamais dorme porque foi gerado por aquele que não tem sono. Todavia, o amor e o sono são seus senhores.

Trata-se de uma concepção narcisista, e não edipiana, do processo de Criação e Queda, uma concepção platônica, e não judeu-cristã, que se aproxima do conceito de “Autoconfiança”, em Emerson, segundo o qual os aspectos primordiais, superiores, do eu são vistos como inerentes à natueza. O gnosticismo qualificava tais elementos do eu como pneuma, isto é, espírito ou sopro autêntico, a pessoa verdadeira.

O termo “gnosticismo” foi empregado pela primeira vez no século 17, para definir antiga “heresia” surgida entre pagãos, judeus e cristãos no final do século I da Era Comum — Era Cristã, segundo os judeus. Quase todos os textos gnósticos cuja autenticidade não foi contestada datam do século II, mas a antiga tradição judaica já venerava o primeiro Adão, considerado o verdadeiro profeta. (…) O gnosticismo, assim como a Cabala judaica medieval, retomou antigas controvérsias judaicas sobre Adão, Deus, a criação e a queda.

A literatura gnóstica cristã disponível em língua inglesa deve ser lida na tradução de Bentley Layton, intitulada The Gnostic Scriptures, com ênfase em Valentim, o gênio poético entre os gnósticos de Alexandria. A partir de Valentim, passando pelo poeta romântico alemão Novalis, o romântico francês Nerval e o inglês William Blake, o gnosticismo tem-se mostrado inseparável da genialidade em termos de imaginação. Tendo meditado sobre o gnosticismo ao longo de toda a vida, arrisco afirmar que, na prática, a concepção constitui a religião da literatura”. Decerto, há poetas cristãos geniais que jamais foram acusados de hereges, desde John Donne a Gerard Manley Hopkins e ao neocristão T. S. Eliot. Contudo, os poetas mais ousados da tradição romântica ocidental, que fizeram da poesia sua religião, foram gnósticos, de Shelley e Victor Hugo a William Butler Yats e Rainer Maria Rilke.

Proponho para o entendimento da noção do gênio, uma definição simplificada de gnosticismo: trata-se de um conhecimento queliberta a mente criativa dos ditames da teologia, do historicismo e de qualquer divindade ue se anteponha àquilo que existe de mais criativo no eu. Um Deus alienado do eu interior é um Deus Carrasco, conforme chamou James Joyce, o Deus que gera a morte. O gnosticismo, como religião do gênio literário, repudia o Deus Carrasco.

(…) Os antigos gnósticos experimentaram “a intoxicação causada pela falta de precedentes”. Lembro-me de ter observado diante (…) [da frase] que essa era a descrição da busca permanente dos grandes poetas: liberdade para o eu criativo, para a expansão da autoconsciência da mente.

NORTON: Falavámos sobre Cabala, sobre Cabaláh, download e dowloading de consciência, quando apareceu o livro do Harold Bloom — que chegou a gnosis de tanto ler Shakespeare, outro gnóstico. Claro que Bloom se quiser saber mais sobre Alexandria terá que vir ao Brasil, que é a nova Alexandria, mas isso é mais do mesmo assunto… Contudo, gostei da supervisão do notável Bloom de sublinhar o gnosticismo como condição para o uso genial da Palavra. Assim como o seu ataque [moderado] a farsa teologizante dos fariseus que criaram a razão objetiva para objetivamente serem os donos da razão…

A rigor, a rigor, e Bloom já deve suspeitar disso, pois chegou no ponto, toda a comunicação humana é ato de religião, de religação. Para entendermos isso é preciso não confundir religião com templo, mas como religare. O Verbo enquanto Logus e o Logus enquanto busca de Liberdade. Quem mais busca Liberdade é quem mais vai estar perto da Palavra onde a Palavra é Viva e não letra morta…

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